Saí de casa com uma estranha sensação de que o dia não nasceu tão perfeito como queria, e cedo disso me apercebi quando, por milagre não atropelei o pequeno filho do meu vizinho, que desenfreadamente se escapuliu da vigia da mãe e foi para a estrada.
Mais tarde, num dos muitos cruzamentos da minha aldeia, o Alfredo Nogueira, filho da terra, despistou-se na sua motoreta a vapor, e estatelou-se no pára-brisas do meu velhinho Fiat 600. Além dos ferimentos no pobre carro, preocupava-me os ferimentos do Alfredo, que deitado no chão, assim desamparado, mais parecia um desenho animado caído do cimo de um arranha-céus, coitado. Mas os enfermeiros do posto de saúde que o vieram socorrer garantiram que o homem estava rijo que nem uma rocha e mais descansado, encostei o carro na berma e fui a pé até ao trabalho, os poucos metros que faltavam.
Cheguei atrasado, ligeiramente, mas não fui notado pois à porta da oficina toda a gente se aglomerava em conversas ruidosas e algumas palavras exaltadas. Logo me apercebi que algo se passava com o "patronato". As últimas semanas já indicavam que algo de mau se iria passar a curto prazo, e afinal os indicadores não estavam enganados. Em suma, por falta de trabalho, e de dinheiro para pagar as dívidas, não havia outra solução senão encerrar e mandar toda a gente para o fundo de desemprego.
Ao fim de algumas horas de vã discussões e inconsequentes soluções, dispersamos com a garantia de que no dia seguinte seria dado início à insolvência e tudo o mais. Voltei para casa, a pé, entristeçido e ainda meio dermente com a situação. Caminhava e em cada passo fazia um esforço titânico para não lacrimejar, queria gritar enormemente até que a alma se esvaziasse de todos os sentidos.
Voltei a casa com a certeza de que a estranha sensação com que saíra era bem real, e doída, mas ao chegar perto e vê-la à minha espera na porta com um sorriso e um conforto tal, toda aquela mágoa se dissipou por instantes, e foi uma enorme felicidade sentir que apesar de todo o desconforto que o dia havia sido, é bom saber que alguém espera por nós para nos dar o tal abraço que nos faz sentir a razão porque vivemos... é muito bom mesmo.

Sem comentários:
Enviar um comentário