quarta-feira, 22 de julho de 2009

O Xico e o cu

O meu amigo Xico é o devasso garraio da aldeia, isso já nós, homens da terra, o sabiamos. Mas daí, em conversa íntima com o meu amigo, soube coisas que me arfaram os sentidos por inteiro... ora o meu amigo, sexual predador, olheiro de qualquer corpo fêmeo cujas curvas lhe coalhasse os sentidos, adorava um bom e belo cu de mulher, como abelha gosta de mel... e até nada disso estranha ou entranha, é banal. Mas, de facto, o que a mim mais tocou foi o facto do meu amigo, para conseguir realizar tal "fetiche" sexual, tinha de pagar os seus préstimos a uma qualquer... e em casa, a esposa, insatisfeita pelos "serviços mínimos" do marido, afinal, adora sexo anal, e o fazia com quem conseguia ter o sigilo que estas coisas requerem... e eu sabia... e pensava, caramba, o que o me amigo poupava e a mulher se satisfazia, e o que na vida deles talvez mudasse, o que não seria... se afinal o meu amigo, coitado, entendesse a metade da vida que partilha!

sábado, 27 de junho de 2009

Morreu um rei

Algures, morreu um rei. Desta feita, um, ou, quiçá, o maior, o da "pop". Não me desagrada nem tão pouco me agrada a morte do dito. Custa-me, na essência, sentir que morreu alguém que, musicalmente, ritmicamente, no mais ...mente possível, contribui para os meus vários e demais gostos musicais... foi na realidade um ícone da música, de uma geração (que se prolongou até aos tempos actuais), independentemente do que foi como homem. Nisso, não me imíscuo, nem comento, nesta hora tão funesta, pois o que na realidade gostei nele e sempre vou gostar foi, acima de tudo, o que a vivaçidade e energia da sua música me trouxe, e ainda hoje, me confesso, gosto imenso...
Perdeu-se um grande músico e compositor. Já muitos outros, de igual forma, súbita, inequívoca e fugaz, assim se perderam, e muitos outros se perderão.
Porém, também sabemos que tudo isto é normal, já antes se perderam outros nomes bem maiores, que aos dias de hoje seriam de uma dimensão ainda maior... resta-me, no entanto, um estranho e sinistro desconsolo de que, no porvir dos novos tempos, não haverá grandes perdas musicais que não sejam do passado, porque, na realidade, nos dias que correm, é fácil qualquer TV fazer um novo Michael, ou novos Pink Floyd, mas, no fundo, quem goste de música, facilmente vai perceber onde falta a essência de se ser um dos reis do mundo. Um bem haja a este e como ele se foi, Madonna, mete-te a pau, dos reis da "pop", só tu reinas.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Combustão de absurdos

No lento fim do amor
latejantes negações
aquém absurdo,
a virgem perdida
no uníssono dos passos,
pastores de solidões.
O lado vazio
chamada para a morte
mansamente enfraquecida.
Na íris do sentimento
há visões que cabem nos olhos
das flores sonhadoras
electrocutadas na ganância
de reaver todo o tempo perdido
no desânimo dos amantes.
Noutro espaço alforriado
choram saudades, espectros antigos
condecorações e prisões,
futuro de graníticos louvores
que com a mesma mão
dá e tira brilho ao tacto.

Fiz-me à vida
e pela zurrapa cresci um palmo
... vais agora dizer-me porquê?
Dias cinzentos, cartas viúvas
enamorado por todas, sem demora
e por ninguém...
Dualidades. Correm forcas
atrás dos enforcados,
o que é bicho é caça...
fábulas da alma
e sonho acordado
no centro das labaredas,
chão de rugidos.
No lado moribundo da palavra
há diálogos de luas inteiras,
anagramas do espírito
flautas doentes de ilusões,
intolerâncias a rodos,
de chofre, pela utopia dos verbos.
Difamações maritais e parietais
mundo canalha
a beleza que magoa de vez
os dias mal agendados,
porque me odeio e amo
sem sair dos condomínios
do meu corpo.

Lá fora,
dormem absurdos ais da noite,
por descuido
esquinados em voz alta
no desfecho do querer
que nos cozinha a extravagância
desses minutos, abismos loucos
filhos de sémens diferentes
nas solidões que calafetam
à ilharga do sol,
encostado ao monte de Abraão,
onde o amor vai comer
à mão do Senhor!

Patrões de trazer por casa

O meu patrão é um homem bom. Deve a toda a gente, mas é bom, diz ele, na boca dele e só dele, quando de si fala… Não procura trabalho porque é humilhante andar a pedinchar trabalho por aí, como se necessitado fora. Ao invés, procura que o trabalho lhe caia no colo, singelamente, já laminado, sem ivas nem impostos, por debaixo da mesa se possível e sem muito trabalho… é, na verdade, uma verdadeira vedeta das nossas PME’s. Um assombro…
A mulher, também é funcionária, uma coisa fora-de-série, porque só ela apenas, absorve o ordenado de três funcionários, mas em compensação é uma das telefonistas mais bem pagas do mundo, pois só sabe falar ao telefone e desde que não sejam credores, pois aí já não está, saiu, e não sabe quando volta, extraordinário…
Por isso ele deve aos que ainda, poucos, que lá trabalham, aos fornecedores que já não lhe dão crédito e que ele tanto resmunga, “como é possível, um gajo que gasta tanta coisa destes gajos”, pois mas também não paga o que compra… às finanças, à segurança social, aos que em tribunal os meteram e que por ordem judicial têm obrigações e cheques para cumprir até ao final do ano, e um rol enorme de enormidades sem nexo de pura e má gerência dos ganhos, independentemente da crise evidente que existe, e é inegável.
Em suma, com o que já vi e vivi, e do que penso e já pensei, vou começar a rentabilizar os meus dias procurando trabalho, pois quantos mais dias eu trabalhar para este patrão, mais dias vou ficar sem ganhar, e ao fim ao cabo o resultado, e mais tarde direi, será este: “vai aguentando a empresa enquanto pode, com alguns trabalhitos e dois ou três funcionários, desde que um deles seja o encarregado (o coração da empresa), vai fazendo alguma coisa, até ao final do ano e cumprir as obrigações judiciais e às quais não pode fugir, por processos que já transitaram em julgado, e no fim do ano, saldadas as dívidas mais prementes, vai dizer a quem lá trabalha, se calhar com cinco ou seis meses de atraso e subsídios de há dois anos para receber, que afinal correu mal e não há nada a fazer. Lamento”
Quero ver se saio antes disso, porque se agora já custa o que perdi, imagino daqui a meia dúzia de meses, a dor que não seria… e as contas mantêm-se.
Curiosidadades à parte, o dito cujo não deixou de ir ver os jogos do glorioso ou as touradas em Portugal e em Espanha, nem tão pouco de viver como sempre viveu… Afinal, qual de nós é parvo nesta história, eu, claro, e alguns demais, poucos…

terça-feira, 16 de junho de 2009

O fim do Serafim

O Serafim andava triste e melancólico de há uns dias para cá, mas como toda a vida havia sido uma pessoa sizuda e calada, quase passava despercebido às gentes cá do sítio. Naquele dia, porém, achava-o mais melancólico ainda do que lhe era natural e até falei sobre isso com o meu compadre, à hora da bucha, mas ele não achou nada de mais e por ali ficamos. Mas havia alguma coisa de estranha naqueles momentos e não resisti a abeirar-me do vizinho Serafim, pois a curiosidade amofinava-me em contínuo. "Então vizinho Serafim você hoje parece inquieto homem!". Quase nem se mexeu, engoliu a giginha, talvez a sexta ou sétima da manhã, e murmurou numa voz já algo turva, "onde vou não sabeis, mas há noite levo seis", e dito isto mandou o Xavier encher o copo, de novo. Dei-lhe uma palmada nas costas e despedi-me "coma qualquer coisa Serafim, não esteja só a pingar a alma, até logo". Já quase me preparava para dormir quando um alvoroço enorme vinha da rua, eram a gente da terra na rua, como se o Carnaval viesse antecipado e cheio de genica, aos brados e lamentos. Vesti-me apressado e abeirei-me da multidão lá fora. Percebi rapidamente que algo trágico fora, mas não o quê. Lá encontrei o Xaneco e o irmão que então me contaram que o velho Serafim, tinha enlouquecido de vez e se havia matado, mas não foi sozinho, antes porém, o homem matou o cunhado e a mulher, as duas primas da parte da mãe, o vizinho do lado, o Amilcar e a mãe, em suma, os seis que o velhote havia sussurrado e que eu não percebi que mal fosse. Agora, na aldeia, todos têm medo quando ouvem alguém dizer (nem por brincadeira) "levo seis", ou "levo dois, etc", e deixam-se ficar fechados em casa até ao amanhecer, não vá a desdita acontecer. Eu cá por mim, não me preocupo, não levo nem um nem ninguém, vou sozinho e vou muito bem, e pelo contrário, se quiserem ver-se livre de mim, ainda vão ter de me levar...Mas enquanto cá andar, vou tentar estar atento quando voltar a sentir alguém pedir ajuda sem falar...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um dia aziago

Saí de casa com uma estranha sensação de que o dia não nasceu tão perfeito como queria, e cedo disso me apercebi quando, por milagre não atropelei o pequeno filho do meu vizinho, que desenfreadamente se escapuliu da vigia da mãe e foi para a estrada.


Mais tarde, num dos muitos cruzamentos da minha aldeia, o Alfredo Nogueira, filho da terra, despistou-se na sua motoreta a vapor, e estatelou-se no pára-brisas do meu velhinho Fiat 600. Além dos ferimentos no pobre carro, preocupava-me os ferimentos do Alfredo, que deitado no chão, assim desamparado, mais parecia um desenho animado caído do cimo de um arranha-céus, coitado. Mas os enfermeiros do posto de saúde que o vieram socorrer garantiram que o homem estava rijo que nem uma rocha e mais descansado, encostei o carro na berma e fui a pé até ao trabalho, os poucos metros que faltavam.


Cheguei atrasado, ligeiramente, mas não fui notado pois à porta da oficina toda a gente se aglomerava em conversas ruidosas e algumas palavras exaltadas. Logo me apercebi que algo se passava com o "patronato". As últimas semanas já indicavam que algo de mau se iria passar a curto prazo, e afinal os indicadores não estavam enganados. Em suma, por falta de trabalho, e de dinheiro para pagar as dívidas, não havia outra solução senão encerrar e mandar toda a gente para o fundo de desemprego.


Ao fim de algumas horas de vã discussões e inconsequentes soluções, dispersamos com a garantia de que no dia seguinte seria dado início à insolvência e tudo o mais. Voltei para casa, a pé, entristeçido e ainda meio dermente com a situação. Caminhava e em cada passo fazia um esforço titânico para não lacrimejar, queria gritar enormemente até que a alma se esvaziasse de todos os sentidos.


Voltei a casa com a certeza de que a estranha sensação com que saíra era bem real, e doída, mas ao chegar perto e vê-la à minha espera na porta com um sorriso e um conforto tal, toda aquela mágoa se dissipou por instantes, e foi uma enorme felicidade sentir que apesar de todo o desconforto que o dia havia sido, é bom saber que alguém espera por nós para nos dar o tal abraço que nos faz sentir a razão porque vivemos... é muito bom mesmo.

domingo, 14 de junho de 2009

O estado das coisas

De facto, isto a vida tem cada coisa. Vinha eu, chegado da minha faina pelos meus parcos cultivos do dia-a-dia, e logo o meu compadre me falava da famosa e astronómica transferência do nosso "eusébiozinho" branco para o Real Madrid. Contente, claro que fiquei, aliás, como qualquer bom luso que se preze e orgulhe de ver alguém singrar deste modo nas elites do mundo em que vivemos e devoramos sagazmente... porém, ao chegar perto de casa e ao abeirar-me da entrada da minha humilde mas honrada casinha, é que me apercebi dos valores em questão, e pus-me a pensar, de facto (e que me perdoem os letrados todos da nossa camoniana língua brasileira, mas eu ainda escrevo em português, e o "facto" leva "c" para não ser de fato [e gravata]), como é possível, e é, alguém sem saber fazer nada na vida além de dar uma porcaria de uns pontapés na bola, ganhar tanto dinheiro, e em contraponto, tantos excelentes dotados em outras profissões de mérito social e humano, desde os mais variados ramos, e que envolveram um esforço e aplicação durante vários anos para um doutoramento, e ainda assim alguns atingindo o "estrelato" nas suas mais variadas áreas, em nada se compararem ao "fenómeno".
Em conclusão, não é de estranhar, que cada vez mais se vêem pais a levar os filhos quase no berço às escolas de formação de futebol, principalmente dos grandes clubes, na ânsia de que ali venha uma futura loja de roupa na avenida de Roma da marca Rubem99, ou Amilcar5, enquanto mais outros vão poder desfrutar... afinal somos pequeninos em tudo, só é pena não sermos grandes na ambição que querermos sermos grandes naquilo que realmente é de valor real... grandes homens e mulheres, profissionais, políticos, pessoas, e afinal portugueses, pois, para mim, o futuro não está na exportação de Ronaldos e companhias, mas sim na formação dos jovens que têm um futuro à sua frente, e que, à semelhança do governo e do resto do país, anda à deriva nas poucas e reles opções que lhes sobram.
Para mais, acho que de facto, devia ser proíbido divulgarem os valores de ordenados mensais de situações idênticas, porque mesmo que não as digam toda a gente sabe que foi muito dinheiro, mas não sabendo valores vai especulando por graça e raça..., mas sabendo que um "puto de vinte anitos" ganha tanto a dormir 8 horas como uma pessoa comum em Portugal por ano, é absurdo, abusivo, e um verdadeiro gozo com quem labuta todos os dias para conseguir pagar a renda de casa, isto se o patrão lhe pagar e o diabo a sete... mas isto é um futebolista, porque há outros mágicos que nos vão usurpando diariamente, com um sorriso na voz... são mágicos, afinal estamos em Portugal, e aqui, senhores, tudo é possível, tudo...